Postado em 04 de Setembro às 16h08

(Texto do Departamento de Xadrez Feminino da FCX) | Que mensagem desejamos passar às jovens enxadristas?

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Federação Catarinense de Xadrez - FCX Manifestação postada pelo DEPARTAMENTO DE XADREZ FEMININO DA FCX, por se tratar de uma questão de interesse do Xadrez Feminino e por ser assinada por dezenas de expoentes do xadrez...

Manifestação postada pelo DEPARTAMENTO DE XADREZ FEMININO DA FCX, por se tratar de uma questão de interesse do Xadrez Feminino e por ser assinada por dezenas de expoentes do xadrez feminino de SC e do Brasil.

Que mensagem desejamos passar às jovens enxadristas?

É dado que a categoria de xadrez que possui mais equidade de gênero é a escolar. À medida que a categoria sobe, a representatividade feminina desce. Para onde vão as jovens enxadristas? Ainda que quando meninas sentimos o peso dos significados de se tornar mulher, conforme crescemos, são adicionados mais pesos à nossa caminhada e desenvolvimento.

Você aí que nos lê, quantas enxadristas conhece que abandonaram o esporte pois os namorados não achavam conveniente que elas tivessem o próprio hobby? Quantas mulheres, agora mães e esposas, abandonaram o jogo pois não é de bom tom uma senhora casada ir viajar sozinha? Agora faça o exercício de visualizar o contrário: quantos homens, apoiados por suas esposas e namoradas, estão lá, firmes e fortes seguindo a prática da nobre Arte de Caíssa?

Se mulher, quantas vezes foi assediada por aquele senhor até 40 anos mais velho? E se você é homem, não importa a idade, quantas vezes já não achou mais interessante comentar com o amigo sobre a vida íntima e os atributos físicos daquela jovem que mal desabrochara do que fazer qualquer outro comentário que a qualifique como um ser humano que pensa e que sente?

Há quem se pergunte se o xadrez é esporte, ciência ou arte. Não importa qual a definição, as mulheres são secularmente excluídas de todas as esferas sociais, restando a elas a missão de parir, servir, limpar, agradar, embelezar, cuidar, incentivar o outro, se abnegar, calar. O que não é diferente no ambiente enxadrístico, predominantemente masculino — e até um passado bem recente, unicamente masculino.

Conforme as personagens femininas começaram a reivindicar seu direito de fala e espaço no show da História, puderam interpretar papéis que até então eram reservados exclusivamente para homens — ainda que estes papéis arduamente conquistados continuem sendo acumulados com o papel da servidão em suas mais diversas esferas. Embora tenhamos ocupado algum espaço (restrito, mas ocupado), as estruturas patriarcais nos fazem pagar um alto preço por estarmos ali. Esse preço é a nossa objetificação. É preciso que isto seja dito! Tais estruturas, já incapazes de manter o controle total dos nossos corpos, se remodelaram. Explorando, objetificando e sexualizando os corpos femininos. Os clubes do Bolinha, digo, de xadrez, que ainda parecem estarem ambientados no século XIX, toleram a presença feminina pois esta serve de deleite.

Recentemente, enxadristas brasileiras tiveram que lidar com uma imagem de promoção de divulgação local de um torneio feminino internacional. A imagem, que continha uma modelo, reforçava o estereótipo de que a aparência física de uma mulher está acima de qualquer outra qualidade. Chamava a atenção para par de pernas e decote. Seu rosto? Sequer aparecia... Temos o direito de usar decotes e deixar nossas pernas à mostra (os homens têm o direito de andar sem camisa!), é o nosso corpo e não temos porquê ter vergonha dele ou nos sentirmos constrangidas. No entanto, na divulgação de um torneio, queremos ver nossa imagem sendo enaltecida por nossa capacidade como atleta, exatamente como fazem com os homens...

Será que somos capazes de incentivar o xadrez feminino sem utilizar artes que objetificam as mulheres? Até quando vão nos vincular a um papel decorativo para gozo da audiência masculina?

Voltamos à questão inicial: que mensagem desejamos passar às jovens enxadristas? Se o ambiente enxadrístico é tão tóxico para as mulheres, por que continuamos jogando?

Já avançamos muito para abandonar a partida, seguiremos firmes ocupando e defendendo o que já conquistamos e denunciando qualquer retrocesso. Estamos trabalhando para criar um ambiente favorável, de acolhimento para as mulheres, para as jovens enxadristas, no qual sejamos reconhecidas em nossa integralidade.

Nossa geração já ocupou alguns espaços. E qual será a geração de mulheres que fará uma campeã mundial?

Redação: Camila Evaristo da Silva, enxadrista e Mestra em História 

Arte da matéria: Elana de Souza 

Assinam em apoio as enxadristas brasileiras:

WIM/MF Juliana Terao
WIM Kathie Goulart Librelato
WIM Larissa Yuki Ichimura Barbosa
WIM Regina Ribeiro
WFM Julia Alboredo
WFM Agatha Hurba Nunes
WFM Regina Rodrigues Bonfim
MN Thauane de Medeiros
WCM Vanessa Gazola
WCM Rebeca Lot Schucman
MN Amanda Paul Dull
MN Júlia Brunetto Rodio
AI Elana Silva de Souza
Anna Carolina Campos
Julia Goetten Wagner
Karoliny Taiane da Cruz
Liziane Nathália Vicenzi
Maria Eduarda Gomes
Fabíola Campagnolo
Agatha dos Santos Paiva
Marcia de Lima Bispo
Amanda C de Mello
Iandra Pavanati
Talita Machado de Itapema Cardoso
Nicole Pi Chillida
Ana Paula Marques
Daiane Aparecida da Silva
Soraya Vallim Miranda
Bruna Garcia de Souza
Fabíola Faccini Silva de Olveira
Kim Garcia de Souza
Eduarda Pasqualotto Weber
Carine Katia Campestrini
Mariana Wolff
Bruna Campagnolo
Leticia Warginowski
Tiffany Marcele Lino
Tatiana de Mendonça Oliveira
Karine Chaves Miguel da Silva
Bruna Kastner Olivi Finkler
Ana Paula Ozi Raulickis
Julia Füchter
Fernanda Schiochet
Karina Daniela Kanzler Ferreira
Isadora Bernardo Cisz
Bianca Alencar de Souza Nascimento
Eveline Martins da Silva
Vitória Silva da Rosa
Bianca Barros Pan Lopez
Maria Isabel Trivilin
Fabiola Faccini Silva de Oliveira
Taynara Leszczynski
Camila Berreira Braga
Letícia Fritz Henrique
Giovanna Mayara Sibowicz
Ellen Larissa Bail
Diovana Ferreira dos Anjos
Fernanda Luiza Pereira Borges
Danielle Casimiro
Roberta Souto Carlos
Sara Ohana Felix Delgado Britto
Júlia Figueiredo Pascual
Gabrieli de Melo
Caroline Zago
Ana Carolina Godoi Guerra
Katja Sophia Becker
Letícia Geovana Bardefeld
Jéssica Trindade Hubner
Pâmella Vittoria de Melo Braga
Sara Beatriz Silva de Oliveira
Adriana Tonhati Bonvini
Darlane Brito Assunção
Danielle Sena Moura
Isabelle Tamarozi
Janete de Alcantara Mateus
Daniela Wessling

Angélica Mufato Reis

Vitória Matheus Ramillo

Ana Clara Barreto e Silva

Karla Priscila Azevedo 


 

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